OS JESUÍTAS: A CIÊNCIA, A EDUCAÇÃO FÍSICA E O NOVO CONCEITO DE SALVAÇÃO

José Brás1, Maria Gonçalves1, André Robert2

1 Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Instituto de Educação
2 Université de Lyon 2

Resumen

A Companhia de Jesus, fundada em 1534, por Inácio de Loyola (1491-1556), exerceu uma forte influência não só na Igreja, mas na sociedade em geral, incluindo o ensino, a política, a diplomacia e a cultura. Em Portugal, foram incumbidos pelo rei D. Joao III de evangelizar o Oriente, e, por esse motivo, ganharam o epíteto de Construtores da Globalização. Em poucas décadas tornaram-se educadores de elites europeias e transeuropeias e missionários que levaram a doutrina cristã a remotas paragens. Porém, com o Marquês de Pombal criou-se o mito antijesuítico que se arrastou durante muito tempo. Atacados pelo forte obscurantismo e anti-progresso do país foram expulsos do território português em três momentos. Neste sentido, por paradoxal que pareça, definimos como objectivo axial deste trabalho analisar o contributo dos jesuítas para a história da educação física em Portugal. A metodologia utilizada centrou-se nos seguintes descritores: pedagogia jesuítica, ciência, higienismo, exercício físico e educação física. Pela análise das fontes poderemos concluir que os jesuítas, contrariamente à ideia veiculada pela campanha pombalina e republicana, ajudaram a promover no seu tempo a ciência, a higiene e a educação física.

Palabras Clave: Jesuitas; Educación Física; Ciencia.

Abstract

Companhia de Jesus, founded in 1534 by Inácio de Loyala (1491-1556), had a strong influence not only on the church, but generally in the society, enclosing the education, politics, diplomacy and culture. In Portugal, they were put in charge by the king D. João III to evangelize the East, having earned the epithet Globalization Constructors. In a few decades they have become the teachers of the European and trans-European elites, as the missionaries who brought the Christian doctrine to remote places. Although, with Marquês de Pombal appeared the anti-Jesuitical myth appeared, which lasted for a long period of time. Attacked by the strong obscurantism and anti-progress they were forced out of Portuguese territory in tree moments. In this sense, as paradoxical as it may seem, we define the axial goal for this work as the analysis of Jesuits contribution on the Portuguese physical education history. The used methodology was based on the following descriptors: Jesuit pedagogy, science, hygienism, exercise and physical education. Through the analysis of the sources we may conclude that Jesuits, despite the conveyed idea, have helped to promote in its times the science, hygiene and physical education.<br> <br> La Compañía de Jesús, fundada en 1534 por Ignacio de Loyola (1491-1556), tuvo una fuerte influencia no sólo en la Iglesia sino en la sociedad en general, incluyendo la educación, la política, la diplomacia y la cultura. En Portugal, fueron encargados por el rey Juan III de evangelizar el Oriente, y, por lo tanto, se ganaron el epíteto de Constructores de la Globalización. En unas pocas décadas se convirtieron en educadores de las elites europeas y trans-europeas y misioneros que llevaron la doctrina cristiana a remotos lugares. Sin embargo, con el Marqués de Pombal se creó el mito anti-jesuítica que se prolongó durante mucho tiempo. Atacado por una fuerte oscurantismo y anti-progresismo del país fueron expulsados ​​de territorio portugués en tres etapas. En este sentido, por paradójico que parezca, definimos como objetivo axial de este trabajo analizar la contribución de los jesuitas en la historia de la educación física en Portugal. La metodología se centró en las siguientes palabras clave: pedagogía jesuítica, ciencia, higienista, actividad física y educación física. Mediante el análisis de las fuentes se puede concluir que los jesuitas, en contra de la idea transmitida por la campaña Pombalina y republicana ayudaron a promover la ciencia en su tiempo, la salud y la educación física.

Keywords: Jesuits, Physical Education, Science.

INTRODUÇÃO

A Companhia de Jesus é uma ordem religiosa fundada em 1534 por um grupo de estudantes da Universidade de Paris, liderados pelo basco Íñigo López de Loyola, conhecido posteriormente como Inácio de Loyola (1491-1556). Criada na sequência da Reforma e Contra-Reforma tinha como objectivo “estancar a hemorragia de crentes” (Ferreira, 1908-1909), que aderiam ao movimento protestante. Como resposta da Igreja aos desafios externos (movimento protestante) e internos realizou-se o Concílio de Trento, levando duas décadas para produzir os seus cânones definitivos e assegurando a unidade da fé e a disciplina da Igreja, no contexto da Reforma Protestante. O Concílio veio dar mais projecção à Companhia de Jesus, fazendo dela um autêntico exército em defesa dos princípios católicos e na evangelização. Exerceu uma forte influência não só na Igreja, mas na sociedade em geral, incluindo o ensino, a política, a diplomacia e a cultura. A Congregação foi reconhecida por bula papal em 1540 e Portugal foi um dos países que acolheu a companhia e lhe deu uma importante tarefa de missionação nos territórios ultramarinos. Foi o rei D. Joao III que os incumbiu de se lançarem na evangelização planetária pelo império marítimo. Os primeiros Jesuítas que chegaram a Portugal logo em 1540 foram Simão Rodrigues e Francisco Xavier. O primeiro ficou no nosso país e o segundo partiu para evangelizar o Oriente.

Em poucas décadas tornaram-se educadores de elites europeias e transeuropeias e missionários que levaram a doutrina cristã a remotas paragens. Fruto de uma prática persistente de registarem e coligirem os dados que observavam (culturas, línguas, religiões, hábitos e costumes, fauna e flora) contribuíram para a grande revolução que os descobrimentos inauguraram. Os jesuítas ganharam, assim, o epíteto de Construtores da Globalização (Franco & Fiolhais, 2015). Contudo, permanece a divisão de opiniões acerca da Ordem jesuíta. De um lado, emerge uma literatura que a valoriza e glorifica. De outro, emerge uma crítica contundente e diversas referências ao seu obscurantismo, sendo inclusivamente responsabilizada pela decadência nacional e pela falta de progresso do país. Aliás, este foi o motivo principal que justificou os governantes a bani-los do território português. O Marquês de Pombal expulsa-os em 1759:

“Declaro os sobreditos regulares [os Jesuítas] (…) rebeldes, traidores, adversários e agressores que estão contra a minha real pessoa e Estados, contra a paz pública dos meus reinos e domínios, e contra o bem comum dos meus fiéis vassalos (…) mandando que efetivamente sejam expulsos de todos os meus reinos e domínios” (Decreto de 3 de Setembro de 1759).

O Marquês de Pombal criou um mito antijesuitico. A este propósito, Franco (2000, p. 260) refere: “O mito cria mais uma realidade, ou uma realidade suposta, do que a realidade cria o mito” e, neste caso concreto, revelou-se com extraordinária eficácia. O catecismo antijesuítico pombalino é composto por cinco obras. A obsessão anti jesuíta levou o Marquês de Pombal a publicar estas obras onde explica as razões da necessidade de os combater. A campanha anti-jesuítica não se ficou pelo nosso território. De tal modo teve impacto na Europa que o Papa Clemente XIV acabou por extinguir a Companhia em 1773, sendo somente restaurada em 1814 a partir da Rússia (país que juntamente com a Prússia os acolheu).

Esta medida de expulsão veio a ser retomada outras duas vezes: uma, em 1834, por Joaquim António de Aguiar no quadro da restauração do liberalismo e a outra no início da República em 1910 pelo então ministro da Justiça Afonso Costa.

“Artigo 1º - Continua a vigorar como lei da República Portuguesa a de 3 de Setembro  de 1759, promulgada sob o regime absoluto, e pela qual os Jesuítas  foram havidos por desnaturalizados e proscritos, e se mandou que efectivamente  fossem expulsos de todo o país e seus domínios ‘para neles mais não poder entrar’.

Artigo 2º - “Continua também a vigorar como lei da República Portuguesa a de 28 de Agosto de 1767, igualmente promulgada sob o regime absoluto, que, ‘explicando e ampliando” a referida lei de 3 de Setembro de 1759, determinou que os membros da chamada Companhia de Jesus, ou Jesuítas, fossem obrigados a sair imediatamente para fora do país e dos seus domínios.

Artigo 3 º- Continua também a vigorar com força da lei da República Portuguesa o decreto de 28 de Maio de 1834, promulgado sob o regime monárquico representativo, o qual extinguiu em Portugal, Algarve, ilhas adjacentes e domínios portugueses, todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e quaisquer casas de religiosos de todas as ordens regulares, fosse qual fosse a sua dominação, instituo ou regra”. (Decreto de 8 de Outubro de 1910).

As leis de Marquês do Pombal contra os Jesuítas, o decreto de 28 de Maio de 1834, referendado por Joaquim António de Aguiar, e a Carta Constitucional que reconheceu a existência de outras religiões criaram na sociedade portuguesa um ambiente de desconfiança e de hostilidade em relação à Igreja católica. Acresce a estes factores a propaganda laicista e laicizadora republicana que, desde a segunda metade do século XIX, ganha terreno e ataca sobretudo os Jesuítas. A título exemplificativo, vejamos como o jornal republicano O Século a 2 de Novembro de 1910, noticiava a sua expulsão: 

“A Companhia de Jesus de tão odiosas tradições e na qual o marquês de Pombal deu a grande golpe em Portugal, mais uma vez foi expulsa do país e durante algum tempo estiveram detidos no forte de Caxias muitos dos seus membros, superiores, padres, noviços, toda a legião negra a que os empregados das cadeias civis de Lisboa foram aplicar os métodos antropométricos a fim de futuro poderem ser reconhecidos se tiverem a veleidade audaciosa de pretenderem voltar”.

Ate finais da I República perdurou uma imagem negativa dos jesuítas. Atente-se neste soneto extraído de um almanaque republicano:

O Jesuíta

Envolto na sotaina o jesuíta

P’las vielas caminha vagaroso.

Embrenhado em mil tramas, o vaidoso,

Revolve a mente, estorce-se e medita

Encarando a ciência que o irrita,

Ele foge assombrado e furioso;

E p’ra alcançar o pomo apetitoso

Do Nazareno a humildade imita.

É terrível a fera que percorre

Os bosques, as campinas. o redil,

Em procura da ovelha que discorre:

Mas mais terrível é o monstro vil,

Pois que à fraqueza da mulher recorre

Para tramar na sombra com ardil. (Vitória da República. Almanaque de propaganda democrática para 1888, p.142).

Apesar de toda esta campanha antijesuitica, têm, porém, vindo a lume obras que evidenciam o seu papel na história dos descobrimentos, ressurgindo diversos estudos sobre figuras e temas, por um lado, e, por outro, sobre o seu trabalho missionário, educacional e científico.

    1. Problemática

Com efeito, durante várias centúrias, cavou-se a dicotomia entre ciência e religião, constituindo-se em dois domínios do saber antagónicos. É neste contexto que os Jesuítas, conotados durante largos anos como espírito anti-ciência e como forças de bloqueio e de obscurantismo, foram expulsos, como referimos, três vezes do território nacional. Contudo, é hoje indiscutível que a Companhia de Jesus foi essencial para o desenvolvimento do ensino científico na Europa e em Portugal. No século XVIII, o Colégio de Santo Antão, em Lisboa, o Colégio das Artes, em Coimbra e a Universidade de Évora, todas estas três instituições a cargo dos jesuítas, emergem como referências maiores no ensino da ciência no nosso país.

É neste enquadramento contextual que formulamos esta questão norteadora deste nosso artigo. Como se justifica que o Colégio de Campolide criado pelos “soldados de Cristo” (expressão de Marcos Faria, 2010) que se preparavam para a “batalha espiritual” pela prática dos Exercícios Espirituais e pela obediência aos ordenamentos advindos das Constituições [jesuíticas], possa ter sido uma referência na divulgação da ciência, na promoção da Educação Física e de um novo conceito de salvação?

    1. Objectivos

Assim, destacamos como objectivos deste artigo os seguintes: (i) analisar e reflectir sobre a importância que a actividade da Companhia de Jesus teve para a divulgação do conhecimento científico em Portugal; (ii) discutir a importância que a pedagogia jesuíta teve para a história da educação física em Portugal; (iii) verificar de que modo o projecto pedagógico jesuítico incorporou a promoção da ciência; e (iv) interpretar o papel que o Colégio de Campolide teve na inovação pedagógica.

    1. Fontes

 Como fontes do nosso trabalho seleccionámos: (i) As Constituições da Companhia de Jesus; (ii) O Ratio Studiorum; (iii) a Sphaera Mundi. A ciência na Aula da Esfera, manuscritos científicos no Colégio de Santo Antão; (iv) almanaques republicanos; (v) Os Jesuítas (1880), de Teixeira Bastos; (vi) A educação moral e religiosa nos colégios dos Jesuítas (1910) de Aurélio da Costa Ferreira; (vii) Compêndio dos elementos de Matemática necessários para o estudo das ciências naturais e belas letras, composto para uso dos estudantes portugueses (1754-1756), de Inácio Monteiro; e (viii) a História do Colégio de Campolide da Companhia de Jesus escrita em latim pelos padres do mesmo colégio onde foi encontrado manuscrito, de Borges Grainha.

    1. Metodologia

A metodologia centra-se na heurística e na exploração das fontes tendo como critérios de análise e interpretação os seguintes descritores: a génese Companhia de Jesus, o saber médico em Portugal; a educação física no Colégio de Campolide. Os jesuítas, contrariamente à visão dominante, ajudaram a promover no seu tempo a ciência, a educação física e a moral higienicista. Quer as Constituições jesuíticas quer a Ratio Studiorum, para além do espaço primordial dedicado à Filosofia e à Teologia, não deixaram de destacar o estudo das ciências naturais e da matemática. A Aula da Esfera do Colégio jesuíta de Santo Antão foi, no seu tempo, a mais importante instituição de ensino de prática científica em Portugal, formando técnicos científicos de que o país precisava. Nesse Colégio eram abordados temas científicos importantes e são, precisamente, da autoria de jesuítas obras como o Compendio dos Elementos de Matemática, de Inácio Monteiro onde são citados em primeira mão autores como Bacon, Descartes, Newton e Locke. Este facto, a par de outros, configura a cosmovisão científica dos jesuítas em sintonia com o conhecimento científico que se produzia na época.

  1. Pedagogia jesuítica

O ensino ministrado nos colégios jesuítas regia-se pelo mesmo método em diversas geografias. Devido à necessidade sentida de dar coerência e de unificar as suas práticas pedagógicas, construíram a Ratio Studiorum, um documento sistematizador da pedagogia jesuítica. O Ratio Studiorum aborda a formação nos colégios jesuíticos e prevê três graus do ensino: um elementar, chamado de curso de Artes ou Humanidades; outro de formação superior, o de Filosofia; e, por fim, o de formação profissional dos futuros padres, o curso de Teologia. Na base da formação, estavam o latim e o grego, línguas clássicas que deviam auxiliar a retórica, a rigorosa disciplina, e a emulação, ou seja, a competição entre os estudantes e entre as turmas, que era estimulada, inclusive, com sessões solenes de entrega de prémios aos melhores. O Ratio Studiorum regulamentava rigorosamente os estudos nos colégios jesuíticos, cujo fim principal era formação do futuro jesuíta. Embora o Ratio Studiorum não preceituasse castigos corporais, os jesuítas não os suprimiram de todo. Permitiam-se, desde que houvesse justificativa, chicote ou palmatória, os golpes não ultrapassando a seis, evitando-se atingir o rosto ou a cabeça. "No dia solene da investidura, como símbolo da sua missão disciplinadora, recebia oficialmente o professor um chicote. E não o recebia em vão. Pierre Tempête, Principal do Colégio de Montaigu, mereceu a triste alcunha de Grand fouetteur des enfants" (Franca,1952, p. 60).

Para além do Ratio Studiorum, é de considerar também como uma referência fundamental da pedagogia jesuitica os Exercícios espirituais, de Inácio de Loyola. A 1ª anotação explicita desde logo em que consistiam os ditos exercícios. Eles são entendidos como “todo modo de examinar la consciencia, de meditar, de contemplar, de orar vocal y mental, y de otras spirituales operaciones, según que adelante se dirá. Porque así como el pasear, caminar y correr son ejercicios corporales; por la misma manera, todo modo de preparar y disponer el ánima para quitar de sí todas las afecciones desordenadas y, después de quitadas, para buscar y hallar la voluntad divina en la disposición de su vida para la salud del después de quitadas, para buscar y hallar la voluntad divina en la disposición de su vida para la salud del ánima, se llaman exercicios spirituales (1ª anotação. Exercícios Espirituais, de Inácio de Loyola).

De realçar que o passear, caminhar, correr… , apesar de serem exercícios corporais, como Inácio de Loyola refere, podiam ser também considerados exercícios espirituais. O determinante era preparar e dispor a pessoa para tirar de si as afeições desordenadas, procurando encontrar a vontade de Deus, na disposição da sua vida e o bem pessoal.

Uma outra peça determinante no modo do pensar a pedagogia jesuítica são as chamadas Constituições da Companhia de Jesus (1540, 1543 e 1550) que integravam diferentes orientações tais como: admissão à provação, promoção da união na companhia, o governo da companhia. E, curiosamente, essas Constituições têm um capítulo dedicado à conservação do corpo. Neste capítulo eram incluídos os cuidados para com o corpo de modo a conservar a saúde e as forças físicas, para o divino serviço. E nele se encontram orientações sobre a alimentação, vestuário, habitação e trabalho. Recomenda-se: (i) o exercício físico moderado (nada de excesso); (ii) não se deve fazer exercício físico ou intelectual a seguir às refeições; (iii) deve dormir-se de 6 a 7 horas; (iv) o vestuário deve servir para defender do frio e da indecência; e (v) deve cuidar-se da apresentação mas não em demasia, devendo a comodidade prevalecer a qualquer excesso: “Para quem está em provação é bom que na maneira de vestir se ajudem a mortificar-se e a abnegar-se a si mesmos e a calcar a seus pés o mundo e as suas vaidades” (Constituições, de Inácio de Loyola).

Face ao exposto, podemos concluir que a pedagogia jesuítica assenta em torno de três conceitos-chave: ordem, disciplina e método.

  1. O Saber Médico em Portugal no século XVIII

No contexto português do século XVIII, a medicina era marcada pela concepção Galénica. A doença era explicada pelo desequilíbrio dos humores e também pelo sobrenatural e pela magia. O jesuíta Luís António Verney (1713-1792) juntamente com os médicos Francisco de Mello Franco (1757-1822) e Ribeiro Sanches (1699-1782) insurgiram-se contra o ensino livresco da medicina. A influência destes autores levou à reformulação dos Estatutos da Universidade de Coimbra (1772) operando-se, gradualmente, uma nova abertura aos estudos sobre o corpo. Começa a circular a concepção do médico holandês Herman Boerhavee que concebia o corpo como uma máquina com a sua canalização (canos e vasos) por onde circulavam os fluídos. A saúde explicava-se pela boa circulação dos fluídos. Na linha de Boerhavee, Luís António Verney (1746, p.13), por exemplo, equipara o corpo a uma máquina hidráulica. Esta posição era defendida por muitos médicos. É possível o corpo ser comparado a outras máquinas que se regem pela ideia do mecanicismo – os relógios, os moinhos, etc. Com isto perde-se a ideia da unidade, pois como qualquer máquina pode ser desmontada, também o corpo pode ser dissecado (corpo fragmentado). Francisco Mello Franco formou-se no contexto desta mudança e, apesar de ser contraditório, afrontou de algum modo o poder do conhecimento da Igreja. A aliança que se verificava entre a religião a  medicina, defendida por Braz Luís de Abreu (Abreu, 1726, p.243) merece-lhe uma nova reflexão. No seu livro, a Medicina Teológica (publicada anonimamente em 1794 e recolhido pouco tempo depois por Pina Manique), Mello Franco reserva o conhecimento do corpo para os médicos. Esta é a questão principal para a obra ter sido considerada perigosa e não pelo facto de explicar o corpo como se de uma máquina se tratasse. Aliás, ele é contraditório (provavelmente teve que o ser). Em certas passagens ele diz que a Medicina e a Teologia estavam tão ligadas que não deviam nunca andar separadas e ao mesmo tempo refere a necessidade de separar o campo do médico do teólogo. Francisco Mello Franco vem defender que as doenças se explicam a partir do corpo e não partir do pecado criticando por consequência a prescrição dos remédios da Igreja:

“O evangelho manda mortificar nossos corpos, fazê-los vítimas da penitência; e os santos se maltratavam com jejuns, cilícios, açoites, até se fazerem chagas vivas, derramarem muito sangue e mesmo desfalecerem no meio de seus tormentos solitários (...). Ora, tudo isto estraga a saúde do corpo, encurta a vida” (Franco, 1725, pp. 95-96).

Em oposição a Francisco Melo Franco, temos, pois, Braz Luís de Abreu (1692-1756), um dos médicos que defendia a aliança entre a religião e a medicina e cuja vida atribulada inspirou a Camilo de Castelo Branco uma novela. Na sua obra Portugal Médico ou Monarquia Médico-Lusitana partilha a crença de que Deus podia curar as doenças: “os médicos para curarem com acerto as queixas, buscam como católicos, em Deus, os remédios, por ser o reverente temor de Deus, princípio fundamental de toda a Medicina” (Abreu, 1726, p.243). A Bíblia é a sua grande referência para afirmar que Cristo curou leprosos, paralíticos, lunáticos, licantrópicos, cegos, mudos, surdos, febricitantes, hidrópicos e tísicos. Pensamos que a grande presença da Igreja na sociedade explica esta relação de proximidade entre o profano e o sagrado, sendo o uso dos remédios divinos (água benta, imagens religiosas, promessas, culto aos santos, relíquias e exorcismos), preconizado por vários médicos. Garcia (2006, p.7) sublinha que “Braz Luís de Abreu vive neste mundo, dividido, vítima de um drama que as malhas da Inquisição teceram”.

Com efeito, os castigos prescritos pela Igreja (remédios morais) não se compatibilizam com a perspectiva racionalista médica do Iluminismo. Mello Franco faz a apologia dos remédios físicos e a vantagem do controle médico do corpo. Duvida das penitências e do ascetismo. Rompe com a submissão da medicina à religião, colocando-se numa posição diferente da defendida anteriormente por Braz Luís de Abreu. Isto tornou o livro de Francisco Mello Franco indesejado. Mello Franco filia-se nesta nova epistemologia. Os remédios morais deviam ser substituídos pelos remédios físicos. A uma perspectiva do ascetismo religioso devia seguir outra terapia aconselhada pelo médico e não pelo teólogo. Mello Franco vem distanciar-se, pois, de Braz Luís de Abreu, para quem a medicina, como já foi referido, devia estar submissa à religião. Neste sentido, vemos transferidos muitos problemas de ordem moral para o campo da medicina. Tal é o caso do amor, em que se vai abandonando a ideia de pecado, para ser visto como um problema médico. A doença provocada pelo amor está no corpo. Ao contrário dos remédios morais, açoites e castigos, recomenda-se a sangria, banhos, purgantes, anti-sépticos... Verifica-se assim, uma passagem do religioso para o biológico, sendo os problemas do amor passíveis de intervenção médica. Com efeito, a obra de Mello Franco, nos finais do século XVIII, considerada ofensiva à Igreja, vem anunciar o predomínio do saber médico para tratar as enfermidades do corpo.

É também a partir desta altura, que as crianças merecem a atenção e o cuidado médico. Só nos finais do século XVIII é que aparece uma literatura médica dedicada especificamente para a infância. Neste sentido a medicina é chamada a exercer um papel pedagógico na defesa da saúde da criança e da população. Neste sentido, o jesuíta Alexandre Gusmão, em 1790, publicou a Arte de criar bem os filhos idade da puerícia, revelando a sensibilidade que se desenvolve nesta época. No seguimento desta nova sensibilidade, Francisco Mello Franco escreve o Tratado de Educação Física para os meninos da nação portuguesa (1790). Este livro acusa a influência de John Locke, nomeadamente da obra Da Educação das crianças, publicada em 1693, em Londres. O importante a assinalar na luta contra a doença é a necessidade de trabalhar na sua prevenção. Neste sentido a educação é considerada uma arma preciosa, tanto mais que Francisco Mello Franco defende que o exercício físico tem uma acção transformadora benéfica.

Francisco José de Lacerda e Almeida (1753-1798), na obra  Tratado da educação física dos meninos para uso da nação portuguesa (1791), vai também associar-se a esta ideia – o corpo é como uma máquina e o uso do exercício é importante para mover as partes da economia animal, o que é fundamental para a circulação do sangue, secreções, equilíbrio dos humores. É neste quadro contextual, que queríamos sublinhar que a Educação Física emerge como promotora da saúde e como forma de lutar contra os hábitos (maus costumes) que tinham degenerado o corpo. Neste sentido, a Educação Física incorpora também uma preocupação moral, pois visa corrigir comportamentos considerados negativos. Era considerada a solução para preparar as crianças para as adversidades da vida.

  1. O Colégio de Campolide

Importa perceber o contexto do ensino em Portugal no século XIX para compreender a génese do Colégio de Campolide, fundado pelos Jesuítas em 1858. No dealbar do liberalismo afigurava-se relevante a modernização da Instrução Secundária e neste sentido, Passos Manuel cria o Ensino Liceal em 1836 pelo Decreto de 17 de Novembro. A criação dos Liceus veio pôr termo ao Real Colégio dos Nobres, criado pelo Marquês de Pombal, e que surgiu na sequência do conflito entre o Marquês de Pombal e os Jesuítas. Ribeiro Sanches, um dos grandes influenciadores de Pombal, ditaria a matriz altamente selectiva que iria guiar os destinos do Colégio dos Nobres. Ao contrário do que seria de esperar, a Reforma de Pombal que implicou, como já foi referido, a expropriação e a expulsão dos Jesuítas em 3 de Setembro de 1759, 200 anos depois de se terem fixado em Portugal, acabou por ser um retrocesso. Romeiras (2015, pp. 29-30) mostra-nos que o número de alunos, após a expulsão dos jesuítas, decresceu quer no ensino secundário, quer no ensino universitário. Entre 1540 e 1759, os jesuítas estabeleceram em Portugal uma vasta rede de colégios, chegando a ser responsáveis pela educação de cerca de 20 000 alunos. Esse número de alunos (cerca de 20 000) só viria a ser recuperado nos anos 30 de século XX (170 anos depois). Com o Marquês de Pombal, em nome da liberdade e da modernização do ensino, não deixou de se criar um paradoxo o que levou Rómulo de Carvalho (1986, p.466) a sublinhar o carácter repressor que a estatização do ensino assumiu com a liderança do déspota iluminado.

Na realidade, o ensino no Colégio dos Nobres favorecia a educação da nobreza, restringindo ainda mais o acesso à educação. O Marquês de Pombal com a reforma de estudos secundários e universitários reforçou o poder do Estado, o que equivale a dizer, o seu próprio poder e o controle político que queria exercer. Se a reforma pombalina não teve os efeitos desejados, a reforma liceal protagonizada por Passos Manuel também saiu gorada. É discutível apontar quem provocou maiores obstáculos ao desenvolvimento e divulgação do conhecimento. Vulgarmente é a elitização e a repressão exercida através da Real Mesa Censória (criada em 1768) que tiveram um impulso inibidor bem como a Estatização do ensino que serviu na realidade para um melhor controlo. A ideia veiculada e propagandeada pelo republicanismo foi que a expulsão dos Jesuítas teria sido realizada em nome da liberdade e do progresso do ensino. Pensamos hoje que esta questão precisa de ser reequacionada.

Desde o século das Descobertas que se verificou uma procura, uma expansão do ensino e os jesuítas souberam tirar partido desta nova abertura, tendo no decurso do tempo aberto cada vez mais escolas para seminaristas e leigos.

Quadro nº 1. Expansão do ensino dos jesuítas no séc. XVII

Fonte: elaboração própria com base Carvallo, R. (1986, pp. 361-362)

Após a expulsão dos Jesuítas e apesar de se ter verificado uma contracção no Sistema de Ensino, a imagem que ficou acerca deles foi a da sua descredibilização, do seu obscurantismo científico e do seu anti-progresso. Essa imagem deveu-se em grande parte à acção do Marquês de Pombal e à campanha republicana anti-jesuítica. Os Jesuítas, ao terem regressado a Portugal, em meados do século XIX, tiveram que reforçar o esforço para ganharem aceitação que a ofensiva pombalina lhes havia dirigido. Repare-se que já no seculo XVI, quando fundaram o Colégio de Santo Antão, em 1553, se distinguiram pelo ensino das Ciências, como é conhecida a célebre Aula da Esfera, que foi a mais importante instituição de ensino de prática cientifica em Portugal, formando os especialistas científicos de que o país precisava Nessa Aula eram ministrados temas científicos, importantes para a época tais como os logaritmos, o telescópio ou a projecção de Mercator, geometria, óptica, perspectiva, arquitectura e engenharia militar, entre outras. A valorização da Astronomia deve-se, principalmente, às experiências feitas no Observatório astronómico de Santo Antão, onde jesuítas, como Luis Gonzaga, Bocarro, Carbone, Borri, Teles, Soares e outros trabalharam e deram a conhecer ao estrangeiro as observações feitas em Portugal.

Para além dessa inovação, acresce o facto dos colégios dos Jesuítas serem pioneiros na introdução dos jogos e da ginástica. Segundo Ariès (1988, p.130), os humanistas do Renascimento, na sua reacção à escolástica, conceberam as possibilidades educativas dos jogos. Durante séculos a atitude que predominou nas instituições de ensino foi a de vedar a prática dos jogos. Esta atitude de reprovação foi alterada no decurso do séc. XVII também sob a influência dos Jesuítas que souberam tirar partido das possibilidades educativas dos jogos. Os padres Jesuítas compreenderam que não era possível nem desejável suprimi-los. Propuseram assimilá-los, introduzi-los regularmente nos seus programas com a condição de escolherem, regrarem e controlarem. Desta forma, disciplinados, os divertimentos, reconhecidos como bons, foram aceites e recomendados como meio de educação tão estimáveis como os estudos (não só se deixou de denunciar a imoralidade da dança como se começou a ensinar a dança nos colégios pois harmonizava os movimentos do corpo e evitava más posturas, dava desenvoltura e boa aparência). Os jesuítas editaram em latim tratados de ginástica que incluíam as regras dos jogos recomendados. Aceitou-se cada vez mais a necessidade dos exercícios físicos. Os médicos do século XVIII conceberam a partir dos velhos jogos de exercício, da ginástica dos jesuítas, uma técnica nova de higiene do corpo - a cultura física.

O Colégio de Campolide, construído na sequência da restauração da Companhia de Jesus por Carlos Rademaker, fazia parte de uma rede de colégios que foram construídos, uns dedicados ao ensino secundário, outros a casas de formação religiosa em Portugal, África e Oriente. Foi através desta rede onde se inclui também o ensino universitário que os Jesuítas foram ganhando projecção na sociedade. O Colégio de Campolide que surge em 1858 (Lisboa) destinava-se, tal como aconteceu com o Colégio dos Nobres, às elites da sociedade portuguesa, o que veio a servir de alvo à crítica demolidora dirigida aos jesuítas pelos republicanos (Romeiras, 2015).

No contexto a que nos referimos, a educação da elite era feita pelos Jesuítas. Borges Grainha (1913) dizia que o Colégio de Campolide servia como rampa de lançamento para os filhos da burguesia que se queriam afidalgar e que servia simultaneamente como trampolim de ascensão social.

O Colégio de Campolide integrava já na sua organização e construção do espaço as preocupações higiénicas da época. Para além da linha arquitectónica, o colégio era, segundo um ex-aluno, Benjamin de Sousa Teixeira “arejado e batido de ares, o sol e ar penetravam nele sem esforço, lavando-o, aquentando-o e iluminando-o. No traçado das aulas, das salas de estudo, dos próprios recreios, ali vão esses primários elementos exercer a sua exercer a sua benéfica acção com todo o seu poder, com a intensidade exigida, na conta desejada” (Teixeira, 1908, pp. 202-203). Isto era de capital importância, quer para o pedagogista, quer para o higienista. A boa distribuição da luz (sem exageros) e do ar (sem o perigo das correntes perniciosas) demonstra a correcção que presidiu à sua construção. Refere-se ainda a existência de uma enfermaria, reunindo todas as condições requeridas com uma perfeição inexcedível.

Um outro ex-aluno dos jesuítas, Borges Grainha (1913, p.72), descreve deste modo o colégio:

“Dum lado e doutro da capela há dois pátios descobertos, num dos quais se fazem os exercícios de ginástica. No dia consagrado à Virgem Maria sem mácula concebida, celebrou-se o primeiro jantar no novo refeitório dos Nossos que fica disposto de nascente a poente e recebe luz de quatro janelas voltadas para o sul. Junto a ele, por cima dos banhos, fica um depósito e em frente uma dispensa e ao lado seis torneiras que dão água para lavar as mãos. Para o refeitório vai-se por um amplo corredor que dum lado tem janelas e, do outro, quartos (o sublinhado é nosso)”

Pedro José Ferreira (1908), na revista O Nosso Colégio, no número 4º, comemorativo do Jubileu Campolidense, num artigo intitulado A Educação Física sublinha que [no Colégio de Campolide] a “Ginástica está metodicamente feita e acertadissimamente dirigida (...) porque se o corpo não for são e forte não poderá o cérebro com vantagem fazer o seu trabalho” (Ferreira, 1907-1908, pp.207-208). Segundo este autor “consideram-se factores da Educação Física, a Ginástica, os jogos educativos, as excursões, os modificadores mesológicos do alto de Campolide, o racional regime alimentar, os desportos. Considera-se a ginástica científica como a base de toda a educação física”. E deseja que a nova reforma de estudos “conceda mais tempo à ginástica de modo a que todos os alunos possam ter uma hora por dia”. Continua o mesmo autor e ex-aluno do Colégio de Campolide: “O excessivo trabalho intelectual a que são sujeitos os alunos fá-los abandonar e até desvirtuar a educação física e a moral. Todo o tempo é para os estudos e aulas intelectuais, tornando-se difícil tirar algum tempo para os cuidados morais e físicos. No Nosso Colégio considera-se a ginástica científica como a base de toda a educação física” (Ferreira, 1907-1908, p.208).

A Ginástica era também realizada no Colégio de Campolide nos dias festivos. O depoimento de Pedro José Ferreira assinala a comemoração que foi realizada no dia 9 de Dezembro de 1908, oferecida às famílias dos alunos, com uma sessão de ginástica sueca. O professor de ginástica dirigiu a sessão e assistiram o conselheiro José de Novaes, ministro da Justiça e o conselheiro José Dias Ferreira, fazendo cada um acompanhar-se de suas famílias (Ferreira, 1907-1908, p. 48).

A par do ensino regular, os alunos podiam inscrever-se em actividades extracurriculares como aulas de dança, ginástica e música, sendo que estas últimas só se “concederão a alunos de instrução secundária que tenham qualificações suficientes nas aulas do curso” (Ferreira, 1907-1908, p. 49).

O Colégio de Campolide fomentava a criação de “academias” científicas, indo de encontro às disposições do Ratio Studiorum. Estas academias, constituídas pelos melhores alunos de diversos anos, ofereciam aulas especiais aos seus membros, onde se discutiam assuntos científicos. Por vezes estas academias ofereciam sessões solenes e eram apresentadas várias comunicações científicas para todos os alunos do Colégio e suas famílias. Privilegiava-se nestas sessões uma abordagem experimental. A primeira sessão científica em Campolide deu-se em 1873 e foram escolhidos 4 alunos para apresentarem algumas experiências sobre a propriedade da luz. Estas sessões decorreram até 1910 (Romeiras, 2014). O ensino nos colégios dos jesuítas comparativamente aos liceus tinha maior componente experimental. O papel que a revista Brotéria (criada em 1902) teve na divulgação do conhecimento científico, é bem ilustrativo. (Romeiras, 2014, p.32)

CONCLUSÕES

A Companhia de Jesus, fundada em 1534, exerceu uma influência modeladora não só na Igreja mas na sociedade em geral, nomeadamente na política, na diplomacia, na cultura e na educação. Os jesuítas tornaram-se em poucas décadas educadores de elites europeias e missionários que levaram a doutrina cristã a terras remotas. O rei D. João III, numa época em que Portugal detinha um Império marítimo, propiciou-lhes uma evangelização planetária e fez deles obreiros do primeiro processo de globalização ao colocá-los em contacto com povos longínquos e culturas diversas (Franco & Fiolhais, 2015). Desde o século das Descobertas que há uma procura, uma expansão do ensino. Os jesuítas captam esta necessidade e vão, no decurso do tempo, abrir cada vez mais escolas  para seminaristas  e leigos. Segundo o Padre Francisco Rodrigues “A Companhia de Jesus em Portugal encheu todo o século XVII” (cit por Carvalho, 1987, p.363) Contudo com a sua expulsão pelo Marquês de Pombal, a imagem que perdurou acerca dos jesuítas foi de obscurantismo científico e anti-progresso devido à forte campanha ideológica pombalina e republicana.

Quando a Companhia de Jesus foi restaurada em Portugal, em meados do século XIX, os jesuítas intentaram reconquistar a influência que tinham tido nos séculos anteriores. Neste sentido, entre 1858 e 1910, os religiosos da Companhia de Jesus fundaram e mantiveram em funcionamento o Colégio de Campolide (1858, Lisboa), o Colégio de S. Fiel (1863, Louriçal do Campo) e casas de formação religiosa como o Noviciado do Barro (1860, Torres Vedras) e a Casa de Setúbal (1878, Setúbal). E fundaram uma revista científica, Brotéria, uma das mais importantes publicações científicas portuguesas do século XX. Segundo Romeiras (2014) a revista Brotéria publicou cerca de 400 artigos de popularização e mais de 1300 artigos de investigação em zoologia, botânica, bioquímica e genética molecular.

A prática pedagógica no Colégio de Campolide vem demonstrar que os jesuítas foram pioneiros no ensino e na divulgação científica em Portugal. E revelaram preocupações pedagógicas e higienicistas na construção de colégios, na organização do espaço e tempo escolares e na estruturação do currículo, conseguindo apresentar um sentido de salvação diferente da terapia do ascetismo religioso, do maltrato e mortificação do corpo. Souberam compatibilizar a salvação da alma com os cuidados do corpo preconizados pela ciência. A prática pedagógica jesuítica integrou em Portugal a educação física e a ginástica sueca, mais cedo do que ensino liceal público onde só foram introduzidas em 1905 (Brás & Gonçalves, 2009). Os Jesuítas foram igualmente inovadores ao atribuírem valor educativo aos jogos e tiveram um papel importante na educação científica em Portugal. 

Sobre esta problemática, consultar Franco (2006).

Em 21 de Julho de 1773, o Papa Clemente XIV, pela bula Dominus ac Redemptor, decretou a extinção da Companhia de Jesus. A 7 de Agosto de 1814, o Papa Pio VII pela bula Sollicitudo omniuam Ecclesiarum restaurou a Companhia.

Segundo Rosa (2013), a instalação da Universidade em Évora marca o início de uma estratégia que visava propagar o ensino de uma forma significativa, propiciando a diversas camadas sociais o acesso à cultura e à ciência (Rosa, 2013).

Os cuidados com o vestir e o calçar eram uma preocupação dos jesuítas. Na Universidade Teológica de Évora dos jesuítas], recomendava-se aos estudantes que andassem honestamente vestidos, evitando tudo o que tivesse aspecto de luxo, como luvas perfumadas, e vestes de seda, assim como, não podiam usar as cores mais vivas como o “amarelo, vermelho, verde e alaranjado” ficando então, aberto o campo ao pardo e ao preto. (Rosa, 2013, p.135).

Veja-se a obra O olho de vidro, de Camilo Castelo Branco republicada em 2006 pela Esfera do Caos Editores. Atente-se na prosa camiliana: “Corria o ano de 1697. Francisco Luiz d'Abreu, doutor em medicina, mudara sua residência para Coimbra, esperançado em entrar no magistério, conforme lho prometiam sua capacidade, vasto saber e créditos. Tinha casado, quatro anos antes, com Francisca Rodrigues de Oliveira, filha de abastados judeus de Ourém. Não tinham filhos; mas dos braços de um ao outro saltava um menino de cinco anos, chamado Braz [Luís de Abreu], acariciado com blandícias de filho. A criança tratava de padrinho o doutor, e à senhora chamava mãe. A esposa do médico, privada do gozo de se ver assim amimada nos lábios de anjo desentranhado de seu seio, jubilava de lhe ouvir aquele doce nome de mãe, e toda se estremecia de maternal ternura chamando-lhe seu filho” (Branco, 2006, p.32).

Sobre a criação e instalação dos primeiros liceus portugueses, consulte-se Adão, 1982.

O Colégio dos Nobres iniciou efectivamente a sua actividade a 19 de Março de 1766, após ter sido dotado dos bens necessários à sua manutenção, por carta de doação feita em 12 de Outubro de 1765, tendo constituído parte significativa do seu património os bens confiscados aos Jesuítas e à Casa de Aveiro. Em 1823 surgiu a questão da anti-constitucionalidade de uma instituição vocacionada para o ensino exclusivo da nobreza. O Decreto de 4 de Janeiro de 1837 determina a extinção do Colégio dos Nobres. (ANTT, Instituições do Antigo Regime - Fundo Colégio dos Nobres).

O ingresso dos colegiais efectuava-se mediante petição ao rei, com indicação da filiação, nacionalidade e idade. Eram requisitos essenciais, estar qualificado com o foro de moço fidalgo, ter entre 7 e 13 anos, e efectuar o pagamento de uma pensão anual. (ANTT, Instituições do Antigo Regime - Fundo Colégio dos Nobres).

Sobre o impacto da higiene na vida das pessoas, consulte-se (Brás, 2008, 113-138).

O Colégio de S. Fiel foi um dos centros mais afamados e procurados por famílias desafogadas economicamente na educação dos seus filhos” (Martins, 2006, p. 826). Sobre o Colégio de S. Fiel, consulte-se (Martins, 2006, pp. 826-847).

Referencias

1. Adão, Á (1982). A criação e instalação dos primeiros liceus portugueses. Organização administrativa e pedagógica (1836-1860). Oeiras: Instituto Gulbenkian de Ciência.

2. Adão, Á. (1997). Estado absoluto e ensino das primeiras letras. As escolas régias (1772-1794). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian/Serviço de Educação.

3. Ariès, Ph. (1988). A criança e a vida familiar no antigo regime. Lisboa: Relógio D´Água Editores.

4. Brás, J. V. & Gonçalves, M. N. (2009). Os saberes e poderes da Reforma de 1905. Revista Lusófona de Educação, 13, 101-121.

5. Brás, J. V. (2008). A higiene e o governo das almas: o despertar de uma nova relação. Revista Lusófona de Educação, 12, 113-138.

6. Carvalho, R. (1986). História do ensino em Portugal. Desde a Fundação da Nacionalidade até ao fim do Regime de Salazar-Caetano. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

7. Fernandes, A. T. (2010). Afrontamento político-religioso na Primeira República. Porto: Estratégias Criativas.

8. Franca S.J. & Leonel (1952). O método pedagógico dos jesuítas: o "Ratio Studiorum": Introdução e Tradução. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora.

9. Franco, J. & Fiolhais, C. (2016). Jesuítas, Construtores da Globalização. Lisboa: CFP.

10. Franco, J. & Tavares, C. (2012). Jesuítas e inquisição. Cumplicidades e confrontações. Lisboa: Sinais de Fogo.

11. Franco, J. E. (2000). A construção pombalina do mito jesuítico e o seu papel no reforço do Estado Absolutista. In Santos, M. H. C. et al. As Origens do Estado Moderno (pp. 255- 281). Lisboa: SPES XVIII.

12. Franco, J. E. (2006). O mito dos Jesuítas em Portugal séculos XVI-XX. Revista Lusófona de Ciência das Religiões, 9-10 (V), 303-314.

13. Franco, J. E. (2006). O Mito dos Jesuítas: Em Portugal, no Brasil e no Oriente (Séculos XVI a XX). Lisboa: Edições Gradiva.

14. Garcia, M. A. (2006). O drama de Braz Luís de Abreu - o médico, as malhas da Inquisição e a obra. In Marques, A. L (dir). Medicina na Beira Interior da Pré-história ao século XXI (pp. 6-26). Castelo Branco: Semedo Tipo.

15. Leitão, H. et al (2008). Sphaera Mundi. A Ciência na aula da esfera. Lisboa. BNP

16. Martins, E. C. (2006). De Colégio de S. Fiel a Reformatório (Séculos XIX-XX). Contributos à (Re)educação em Portugal. Anais do VI Congresso Luso-Brasileiro. de História da Educação. Percursos e Desafios da Pesquisa e do Ensino da História da Educação. (pp. 826-851). Uberlândia-Minas Gerais. ISBN 85-7078-117-2

17. Oliveira, M. de (2001). História Eclesiástica de Portugal. Edição revista e actualizada. Lisboa: Publicações Europa-América.

18. Romeiras, F. M. (2014). Das ciências naturais à genética: a divulgação científica na revista Brotéria (1902-2002) e o ensino científico da companhia de Jesus nos séculos XIX e XX em Portugal. Tese de doutoramento, Universidade de Lisboa.

19. Romeiras, F. M. (2015). Ciência, Prestígio e Devoção. Os Jesuítas e a Ciência em Portugal (Séculos XIX e XX). Cascais: Lucerna.

20. Rosa, T. (2013). História da Universidade Teológica de Évora (séculos XVI a XVIII). Pref. Justino Magalhães. Lisboa: Instituto de Educação da Universidade de Lisboa.

Cita en Gymnasium

José Brás, Maria Gonçalves André Robert (2016). OS JESUÍTAS: A CIÊNCIA, A EDUCAÇÃO FÍSICA E O NOVO CONCEITO DE SALVAÇÃO. . (2).

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